A importância da estratégia na Copa do Mundo

“Todos podem ver as táticas empregadas nas minhas conquistas; mas o que ninguém pode visualizar é a estratégia que as possibilita”. Sun Tzu

A Copa do Mundo de 2018, que será disputada na Rússia, será a sexta copa com a participação de trinta e duas seleções. Considerando a evolução do futebol praticado nos diversos continentes, principalmente em função do constante intercâmbio de treinadores e jogadores, a diferença entre seleções está cada vez menor. A intensificação da concorrência incentiva, cada vez mais, o pensamento estratégico, onde as ações necessárias para a disputa de uma Copa do Mundo devem ser meticulosamente planejadas.

A palavra estratégia, derivada de “strategos” (general), teve sua origem nos campos de batalha. Em sua acepção original referia-se à formulação dos planos a serem executados por um exército para atingir os objetivos fixados para guerra. Com o passar do tempo, o conceito perdeu sua conotação puramente bélica e foi sendo adaptado para diversas áreas do conhecimento onde a existência de adversários e a concorrência fosse predominante.

Em relação ao futebol, a estratégia é um conjunto de medidas planejadas e adotadas, dentro ou fora de campo, as quais proporcionarão aos jogadores condições mais vantajosas para buscar a vitória num jogo ou numa competição.

A história das copas nos fornece preciosos ensinamentos, a partir dos quais podemos afirmar que possuir uma grande equipe e talentos individuais nem sempre são suficientes para a conquista do título. Por ser um torneio de curta duração, no qual cada seleção disputa, quando muito, sete jogos, vencê-lo significa que uma grande estratégia foi formulada em todos os níveis decisórios. Assim, é indispensável que dirigentes e comissão técnica formulem uma estratégia competitiva para as diversas fases da competição.

As copas que serão abordadas neste texto se justificam pela contribuição que as mesmas tiveram na evolução do pensamento estratégico no futebol.

A estratégia ainda estava nos seus primórdios quando o treinador Alberto Suppicci, campeão do mundo pela seleção do Uruguai em 1930, adotou algumas medidas que favoreceram a celeste olímpica naquele primeiro mundial.

Ele convocou alguns jogadores experientes que participaram das conquistas olímpicas, elaborou um plano de treinamento físico e concentrou os jogadores num sítio distante da cidade de Montevidéu. Convém assinalar que as equipes da Europa, que se deslocaram de navio para a competição levaram em média 15 dias para chegar e a bordo não era possível fazer uma preparação física adequada.

Decorridos 20 anos do primeiro mundial, os húngaros para disputar a copa do mundo de 1954 haviam sido preparados desde 1949, pelo seu treinador Gusztav Sebes. Naquela época, eles já haviam percebido que a preparação de uma equipe deveria ser mais bem elaborada. Nesse sentido, foram executados treinamentos físicos, coletivos e individuais, com e sem bola, dietas programadas, trabalho muscular, assistência médica e apoio psicológico. Gustav Sebes fez da equipe do “Honved”, de Budapeste, a base da sua seleção. Os húngaros, com essa estratégia, conquistaram o “ouro olímpico” na Finlândia, em 1952. Apesar de não terem conseguido conquistar a copa do mundo de 1954, deixaram um importante legado para o futebol nos anos 50.

Em 1966, nós brasileiros, havíamos conquistado as duas últimas copas. Os europeus perceberam que para neutralizar o potencial técnico do Brasil, aliado à preparação física (trabalho basicamente de resistência), necessitavam de um método que trabalhasse a velocidade e a força associadas à resistência. Assim, as seleções européias basearam a sua preparação física no método chamado “circuit training” (circuito de estações onde são trabalhados vários grupamentos musculares). Este método, possivelmente, contribuiu para o sucesso das equipes europeias. Não tivemos uma única seleção sul-americana entre as quatro primeiras colocadas naquele mundial (Inglaterra, Alemanha, Portugal e URSS).

Na mesma competição, os ingleses conseguiram que a FIFA transferisse para Londres a partida semifinal, realizada contra os portugueses, que estava inicialmente prevista para Liverpool. Os portugueses foram obrigados a viajar 24 horas de ônibus, o que certamente contribuiu para a derrota portuguesa (Inglaterra 2 x 1 Portugal).

A campanha vitoriosa da seleção brasileira na copa de 1970, no México, muito se deveu a uma estratégia inovadora no campo da preparação física. Naquele mundial, o fator altitude afetaria o desempenho dos jogadores. A utilização da ciência em apoio ao esporte foi fundamental. Para que os jogadores adquirissem a condição fisiológica para fazer frente aos efeitos da altitude, havia um tempo mínimo exigido para aclimatação, 21 dias. O Brasil foi o primeiro time a chegar ao México, instalandose na cidade de Guanajuato à altitude de mais de 2 mil metros acima do nível do mar.

Ainda na década de 70, na copa do mundo de 1974, tivemos uma revolução tática no futebol. O chamado “Carrossel Holandês”, comandado pelo treinador Rinus Michels, jogou de acordo com a filosofia do futebol moderno, onde o jogo coletivo, a troca rápida de passes e a constante movimentação dos jogadores em campo foram marcantes naquela ocasião. O chamado “Pressing Football” tinha por objetivos estabelecer uma pressão sistemática sobre os adversários para recuperar a posse de bola (“futebol-total”); buscar sempre a superioridade numérica e não ceder em nenhum momento à iniciativa das ações ao adversário. Dois requisitos eram básicos: espírito de luta e excelentes níveis de preparação física e mental. Cabe ressaltar que os holandeses permitiam que suas esposas e namoradas visitassem a concentração, o que era incomum na época.

Durante a copa, a Holanda marcou quinze gols e sofreu apenas três, nos sete jogos disputados. Todavia, a Holanda não foi campeã do mundo. Na grande final contra a eficiente Alemanha, a Holanda fez 1×0 nos primeiros instantes da decisão. A vantagem inicial obtida no placar teria sido prejudicial por causar uma alegria quase que paralisante aos holandeses.

Segundo Paul Breitner, lateral da Alemanha campeão do mundo naquela copa: Nós pudemos derrotar o grande time da Holanda porque os holandeses não entenderam o que ocorreu nos dois primeiros minutos de jogo. Eles fizeram logo um gol de pênalti e tiveram todo o jogo nas mãos, pois o nosso time ficou abalado. Imagine como é começar a final de uma Copa do Mundo derrotado. Não conseguimos tocar na bola, mas a Holanda não soube se aproveitar dessa vantagem inicial.

A Holanda não utilizou o princípio da exploração que consiste em não diminuir a intensidade dos ataques ao sentir o adversário derrotado. Desta forma, se tivesse buscado ampliar a vantagem inicial obtida durante a partida, preferencialmente o mais rápido possível, dificilmente a Alemanha teria conseguido se recuperar do golpe sofrido. Ao final da partida, quando soou o apito, no Estádio de Munique, todos estavam estarrecidos, pois a Alemanha vencera o jogo por 2×1 e era a campeã do mundo.

Na copa de 2006, o treinador do Brasil, Carlos Alberto Parreira, após a derrota para França, admitiu que a estratégia adotada para a competição poderia ter sido mais bem elaborada: “Faltou mais preparação, mais parte física, mais entrosamento. Essa equipe jogou muito pouco. Só um jogo amistoso em Moscou. Esperávamos que o time crescesse ao longo da competição”.

Recentemente, vale mencionar alguns aspectos da estratégia adotada pela seleção alemã para a copa de 2014, que foi muito bem sucedida e coroada com a conquista do título. Construíram um centro de treinamento em Santa Cruz Cabrália na Bahia para melhor se adaptar as altas temperaturas e ter privacidade nos treinos; a grama utilizada nos campos de treinamento era a mesma do maracanã; e alguns treinamentos foram realizados às 13h (horários de alguns jogos).

O estudo da história das copas revelou que as seguintes medidas foram observadas na estratégia das seleções campeãs do mundo: escolha de um treinador com carreira vitoriosa, liderança, visão tática e estratégica; elenco tecnicamente qualificado (mesclando novos jogadores com aqueles que já disputaram Copa do Mundo); equipe com padrão de jogo e com capacidade de alternar sistemas durante a partida e ao longo do torneio; organização tática; preparação física adequada (os jogadores que atuam no futebol europeu estarão em final de temporada); espírito de grupo; estudo detalhado dos adversários, da tabela da competição, da melhor forma de se adaptar ao clima e ao fuso horário, utilização da ciência em apoio ao desempenho, gerenciamento eficiente dos aspectos logísticos (escolha da sede, influência dos deslocamentos aéreos e/ou terrestres…) e o apoio da torcida.

Algumas seleções consideradas favoritas que em algum momento não deram a devida importância à estratégia foram eliminadas. Entretanto, outras que eram tecnicamente inferiores, mas souberam disputar o torneio foram campeãs.

A seleção brasileira, sob o comando do treinador Tite, voltou a ser respeitada não só por ter apresentado um grande futebol, mas pela filosofia implantada, que contempla planejamento, futebol competitivo e organização. Nosso time possui as características ofensivas do futebol brasileiro, bem como concilia a arte dos nossos jogadores com a filosofia tática do futebol moderno (compactação, ocupação de espaços e velocidade).

 

Sérgio Vieira Reale Oficial da Reserva da Marinha

Autor do Livro Guerreiros da Bola

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